Biblia Hebraica Stuttgartensia
Publicada em 1977
A Biblia Hebraica Stuttgartensia (BHS), com seu código distintivo, representa a edição acadêmica padrão do texto hebraico do Antigo Testamento, sendo um marco fundamental para os estudos bíblicos e a crítica textual. Publicada em 1977 pela Deutsche Bibelgesellschaft (Sociedade Bíblica Alemã), esta obra é o resultado de um meticuloso trabalho de erudição que consolidou décadas de pesquisa textual. Sua importância reside na apresentação de um texto hebraico confiável e na inclusão de um abrangente aparato crítico, elementos indispensáveis para qualquer estudo aprofundado das Escrituras Hebraicas.
História e Contexto
A BHS emergiu como sucessora da renomada Biblia Hebraica Kittel (BHK), uma série de edições críticas iniciadas por Rudolf Kittel no início do século XX. A BHK, embora inovadora para sua época, apresentava certas limitações, principalmente no que diz respeito à consistência e à abrangência de seu aparato crítico, além de ter sido baseada em manuscritos menos antigos para algumas seções. Com a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto e o avanço da pesquisa textual, tornou-se evidente a necessidade de uma nova edição que incorporasse os mais recentes conhecimentos e metodologias.
O projeto da BHS foi iniciado sob a liderança de Karl Elliger e Wilhelm Rudolph. O objetivo principal era produzir uma edição que se baseasse em um único manuscrito completo e de alta qualidade, minimizando as reconstruções textuais e fornecendo um aparato crítico mais uniforme e detalhado. A publicação ocorreu em fascículos a partir de 1968, culminando na edição completa em um único volume em 1977. Este período de desenvolvimento permitiu a revisão e aprimoramento contínuos, garantindo a solidez acadêmica da obra.
Metodologia Textual
A metodologia da BHS é caracterizada pela sua fidelidade a um único manuscrito principal e pela rigorosa apresentação do aparato crítico. O Códice de Leningrado (Codex Leningradensis, também conhecido como B19a ou L), datado de 1008 d.C., foi escolhido como o texto-base para toda a edição. A seleção deste códice não foi arbitrária; ele é o manuscrito mais antigo e completo do Texto Massorético Tiberiano que chegou aos nossos dias, sendo notável pela sua precisão na vocalização, acentuação e na Masora (o sistema de notas marginais que preserva a tradição textual judaica).
A reprodução do Códice de Leningrado na BHS é direta, sem emendas no corpo principal do texto, exceto por correções óbvias de erros de escriba que são devidamente indicadas no aparato. A principal ferramenta para o estudo textual na BHS é o seu aparato crítico, localizado na parte inferior de cada página. Este aparato não é uma "tradução", mas sim um registro de variantes textuais e informações adicionais, compilado a partir de uma vasta gama de fontes, incluindo:
- Outros manuscritos hebraicos (incluindo fragmentos dos Manuscritos do Mar Morto e da Genizah do Cairo).
- Antigas versões ou traduções (como a Septuaginta (LXX), a Peshitta siríaca, os Targumim aramaicos e a Vulgata latina).
- Citações em literatura rabínica.
- Conjecturas textuais propostas por estudiosos.
Cada nota no aparato é apresentada de forma concisa, utilizando um sistema padronizado de abreviações e símbolos (sigla) que requerem familiaridade por parte do leitor. O objetivo é permitir que o estudioso avalie as diferentes leituras e tome decisões informadas sobre a provável forma original do texto.
Características Distintivas
As características distintivas da BHS a estabelecem como uma ferramenta acadêmica de excelência. A centralidade do Códice de Leningrado como texto-base é um dos seus pilares, proporcionando uma base consistente e historicamente significativa para a análise. A integridade da Masora é outra característica crucial. A BHS inclui a Masora Parva (MP), notas concisas nas margens laterais que indicam contagens de palavras, grafias raras e outras observações textuais, e a Masora Magna (MM), notas mais extensas geralmente localizadas nas margens superior e inferior, que elaboram sobre os pontos levantados pela MP. A inclusão da Masora é vital para compreender a tradição de transmissão do texto hebraico.
A apresentação tipográfica da BHS é clara e funcional, com o texto hebraico principal ocupando a parte superior da página, seguido pelas notas da Masora Parva e, finalmente, o aparato crítico na parte inferior. Esta organização facilita a leitura e a consulta simultânea das diversas camadas de informação. O prefácio da obra, escrito em latim e alemão, oferece uma explicação detalhada da metodologia, das siglas utilizadas e da história do projeto, sendo um recurso essencial para a correta utilização da edição.
Uso e Importância Acadêmica
A BHS rapidamente se estabeleceu como a edição padrão para o estudo do Antigo Testamento hebraico em universidades e seminários ao redor do mundo. Sua importância reside na capacidade de fornecer aos estudiosos uma base textual confiável e os meios para investigar as complexidades da transmissão textual. Para exegese bíblica, a BHS é indispensável, pois permite que os pesquisadores analisem o texto em sua língua original, considerando as nuances de vocalização, acentuação e as possíveis variantes textuais.
A maioria das traduções modernas da Bíblia para diversos idiomas utiliza a BHS como seu texto hebraico de referência. Isso significa que as decisões de tradução são frequentemente informadas pelas leituras e variantes apresentadas no aparato crítico da BHS. Além disso, a BHS serve como uma ferramenta fundamental para o ensino do hebraico bíblico e da crítica textual, capacitando estudantes a desenvolverem habilidades essenciais para a pesquisa acadêmica.
Relevância Contemporânea e Legado
Mais de quarenta anos após sua publicação, a Biblia Hebraica Stuttgartensia mantém sua posição como a edição autoritativa do Texto Massorético. Embora o campo da crítica textual continue a evoluir e uma nova edição, a Biblia Hebraica Quinta (BHQ), esteja em desenvolvimento para eventualmente substituí-la, a BHS permanece insubstituível em sua contribuição para os estudos bíblicos. A BHQ, ao incorporar novas descobertas e refinar a metodologia do aparato crítico, baseia-se diretamente no legado de rigor e precisão estabelecido pela BHS.
O legado da BHS é evidente na forma como moldou gerações de estudiosos e influenciou inúmeras traduções bíblicas. Sua abordagem meticulosa e sua dedicação à apresentação do texto hebraico com um aparato crítico abrangente estabeleceram um padrão de excelência que continua a ser um modelo. A BHS não é apenas um livro, mas uma ponte essencial para a compreensão das riquezas e desafios do texto sagrado do Antigo Testamento, garantindo que o estudo das Escrituras Hebraicas seja fundamentado em uma base textual sólida e criticamente examinada.