King James Fiel
Publicada em 2011
A versão bíblica King James Fiel (KJF), publicada em 2011, representa um esforço significativo para transpor para o idioma português a reverenciada King James Version (KJV) inglesa, mantendo uma fidelidade rigorosa às suas características textuais e estilísticas. Esta tradução não se apresenta como uma nova versão a partir dos textos originais hebraico e grego, mas sim como uma derivação direta da KJV de 1611, buscando preservar a essência e a estrutura daquela que se tornou um pilar para o protestantismo anglófono.
História e Contexto da Tradução
A gênese da King James Fiel está intrinsecamente ligada à história da King James Version original, também conhecida como a Autorized Version, comissionada pelo Rei Jaime I da Inglaterra e concluída em 1611. A KJV foi o resultado de um projeto ambicioso que reuniu cerca de cinquenta dos mais proeminentes estudiosos da época, com o objetivo de produzir uma tradução que fosse precisa, acessível e capaz de unir as diversas facções religiosas da Inglaterra. Esta versão estabeleceu-se rapidamente como a Bíblia padrão em inglês, não apenas por sua autoridade eclesiástica, mas também por sua profunda influência na literatura, na língua e na cultura inglesa.
A KJV se baseou predominantemente no Textus Receptus (Texto Recebido) para o Novo Testamento e em textos massoréticos hebraicos para o Antigo Testamento. Este alicerce textual é um ponto crucial para a compreensão da KJF. Ao longo dos séculos, a KJV foi revisada e atualizada em sua ortografia e pontuação, mas sua estrutura e base textual permaneceram amplas e inalteradas. A demanda por uma versão em português que replicasse fielmente as características da KJV surgiu de comunidades e indivíduos que valorizam a tradição textual e o estilo formal da versão inglesa, percebendo uma lacuna entre as traduções portuguesas existentes e a KJV.
Metodologia de Tradução
A metodologia empregada na elaboração da King James Fiel distingue-se por seu compromisso com a equivalência formal em relação à King James Version inglesa. O processo de tradução teve como ponto de partida a KJV de 1769 (Blayney), que é a forma padrão da versão em inglês atualmente em uso. O objetivo primordial foi replicar, na medida do possível, a estrutura sintática, o vocabulário e o estilo literário da KJV para o português, em vez de realizar uma nova tradução diretamente dos idiomas originais.
Os tradutores da KJF buscaram manter uma correspondência palavra por palavra sempre que a gramática e o sentido do português permitissem, o que resulta em uma tradução que muitas vezes reflete a ordem das palavras e as construções frasais da KJV. Esta abordagem difere significativamente da equivalência dinâmica, que prioriza a clareza do significado no idioma-alvo, mesmo que isso implique em desvios da estrutura original. A fidelidade ao Textus Receptus, o texto-base subjacente à KJV, é, portanto, uma característica intrínseca da KJF, uma vez que a versão portuguesa espelha as opções textuais da sua predecessora inglesa.
A preocupação em preservar o tom solene e a dignidade linguística da KJV também guiou as escolhas lexicais e gramaticais, resultando em uma linguagem que pode ser percebida como mais formal ou arcaica em comparação com outras traduções contemporâneas em português. A utilização de pronomes arcaicos, como "vós" e "vosso", e de formas verbais correspondentes, é um exemplo notável dessa busca por equivalência estilística.
Características Distintivas
A King James Fiel apresenta várias características que a diferenciam de outras traduções da Bíblia disponíveis em português:
- Base Textual: Sua aderência ao Textus Receptus para o Novo Testamento é um dos aspectos mais marcantes. Este texto difere dos textos críticos utilizados pela maioria das traduções modernas, como a Almeida Revista e Atualizada ou a Nova Versão Internacional, que se baseiam em manuscritos mais antigos (geralmente da família alexandrina). Esta escolha textual implica na inclusão ou exclusão de certas passagens e em variações de leitura em diversos versículos.
- Fidelidade à KJV: O compromisso central é com a King James Version de 1611/1769. Isso significa que a KJF procura reproduzir as escolhas de tradução, o vocabulário e as nuances teológicas presentes na versão inglesa, em vez de reinterpretar os textos originais de forma independente.
- Estilo Linguístico Formal: A linguagem da KJF é deliberadamente formal e, em certas passagens, pode soar arcaica para o leitor contemporâneo. Essa formalidade busca evocar a majestade e a solenidade da KJV inglesa, empregando um português mais elevado e menos coloquial.
- Preservação de Termos Específicos: A KJF mantém a tradução de termos e frases que se tornaram icônicos na KJV, mesmo que outras traduções portuguesas adotem abordagens diferentes para os mesmos conceitos. Isso contribui para sua identidade particular e para a continuidade de certas tradições interpretativas.
Uso e Importância
A King James Fiel desempenha um papel significativo para um segmento específico da comunidade cristã de língua portuguesa. Sua principal importância reside em oferecer uma alternativa para aqueles que valorizam a King James Version e desejam ter acesso a uma Bíblia em português que reflita suas características textuais e estilísticas. É frequentemente utilizada por:
- Comunidades e igrejas que mantêm uma forte afinidade com a tradição reformada e puritana, onde a KJV tem sido historicamente a Bíblia de referência.
- Estudiosos e leigos que se dedicam ao estudo comparativo de versões bíblicas e que desejam analisar as implicações das diferenças textuais entre o Textus Receptus e os textos críticos.
- Indivíduos que apreciam a linguagem formal e solene, considerando-a mais apropriada para a leitura das Escrituras e para a adoração.
A KJF serve como uma ponte cultural e linguística, permitindo que falantes de português se conectem com a herança da KJV de uma maneira que outras traduções não proporcionam. Sua existência sublinha a diversidade de preferências textuais e estilísticas dentro do cristianismo lusófono.
Relevância Contemporânea
No cenário contemporâneo de traduções bíblicas em português, a King James Fiel ocupa um nicho distinto. Embora a maioria das novas traduções e revisões se baseie em textos críticos e adote uma linguagem mais moderna e acessível, a KJF representa a continuidade de uma linha textual e uma abordagem tradutória que remonta ao século XVII. Sua relevância não se mede pela popularidade em massa, mas pela sua capacidade de atender às necessidades de um público que busca uma conexão direta com a tradição da King James Version.
A KJF contribui para o diálogo sobre a teoria da tradução bíblica, ao demonstrar a viabilidade e o valor de uma abordagem de equivalência formal, mesmo quando a versão de origem já é uma tradução. Ela também mantém viva a discussão sobre a primazia do Textus Receptus, oferecendo um texto em português que reflete essa base textual, em contraste com a preponderância de versões baseadas em manuscritos alexandrinos. Dessa forma, a King James Fiel não é apenas uma tradução, mas um documento que reflete uma escolha teológica e um apreço por uma linhagem histórica específica na transmissão e tradução das Escrituras.