Mikraot Gedolot
Publicada em 2000
A Mikraot Gedolot (MH), uma edição clássica do texto hebraico da Bíblia acompanhada por uma vasta gama de comentários rabínicos tradicionais, representa um pilar fundamental no estudo e na compreensão da literatura bíblica judaica. Não se trata de uma tradução no sentido convencional de transpor um texto de um idioma para outro, mas sim de uma compilação meticulosamente estruturada que apresenta o Texto Massorético da Torá, Profetas e Escritos (Tanakh) em seu idioma original, ladeado por interpretações e notas que atravessam séculos de erudição judaica. A edição MH, publicada no ano 2000, insere-se numa linhagem de edições que remontam ao início da imprensa hebraica, consolidando um formato e um conteúdo que se tornaram canónicos para o estudo do Tanakh.
História e Contexto da Edição
A tradição das Mikraot Gedolot, cujo nome se traduz como "Grandes Escrituras" ou "Grandes Bíblias", tem suas raízes nos primeiros séculos da imprensa hebraica. A necessidade de compilar o texto bíblico juntamente com os principais comentários rabínicos surgiu da complexidade do hebraico bíblico e da riqueza da exegese judaica acumulada ao longo dos milénios. Antes da imprensa, os manuscritos continham apenas o texto bíblico ou comentários individuais, tornando o estudo comparativo um desafio logístico. A invenção da imprensa possibilitou a criação de edições que reuniam esses diversos elementos em um único volume.
A primeira edição que estabeleceu o formato que viria a ser conhecido como Mikraot Gedolot foi a Bíblia Rabínica de Daniel Bomberg, publicada em Veneza entre 1516-1517 e, mais notavelmente, entre 1524-1525, sob a edição de Jacob ben Hayyim ibn Adonijah. Esta obra monumental não só padronizou o Texto Massorético, mas também organizou os comentários de forma sistemática ao redor do texto central. A edição de Bomberg tornou-se o modelo para todas as futuras Mikraot Gedolot, influenciando a seleção de comentários e a disposição gráfica. A edição MH de 2000 representa uma continuidade dessa tradição, beneficiando-se dos avanços na crítica textual e na tipografia, ao mesmo tempo que preserva a essência e o propósito das edições históricas.
Estrutura e Conteúdo Distintivos
A principal característica da Mikraot Gedolot reside na sua estrutura editorial única, que posiciona o texto bíblico hebraico no centro da página, rodeado por um arranjo hierárquico de comentários e anotações. Esta disposição não é meramente estética; ela reflete uma metodologia de estudo que encoraja a intertextualidade e a exploração de múltiplas camadas de significado simultaneamente. Os componentes essenciais de uma Mikraot Gedolot incluem:
- Texto Massorético (TM): O texto hebraico consonantal da Bíblia, pontuado com vogais e acentos (tropos), conforme a tradição massorética. Este texto é a base de todo o estudo.
- Targumim: Traduções aramaicas e paráfrases do texto bíblico. O Targum Onkelos para a Torá e o Targum Jonathan para os Profetas são os mais proeminentes, oferecendo uma ponte linguística e interpretativa para o público de fala aramaica da antiguidade e servindo como uma fonte primária de interpretação.
- Comentários Rabínicos Clássicos: Uma seleção cuidadosa de exegeses de algumas das mentes mais brilhantes da tradição judaica. Entre os mais frequentemente incluídos, destacam-se:
- Rashi (Rabbi Shlomo Yitzchaki, séc. XI): Reconhecido por sua clareza e concisão, Rashi foca no Pshat (sentido literal ou simples) do texto, muitas vezes incorporando interpretações midráshicas que se tornaram parte integrante da compreensão judaica.
- Ibn Ezra (Rabbi Avraham ben Meir ibn Ezra, séc. XII): Aborda o texto com uma perspetiva gramatical, filológica e filosófica, buscando o significado literal através da análise linguística.
- Ramban (Nachmanides, Rabbi Moshe ben Nachman, séc. XIII): Oferece comentários mais extensos, incorporando elementos cabalísticos, filosóficos e debates com outras interpretações.
- Outros comentadores como Rashbam (neto de Rashi, enfatizando o Pshat puro), Radak (Rabbi David Kimhi, com foco na gramática hebraica e exegese), e Sforno (Rabbi Ovadia Sforno, séc. XV-XVI, com ênfase na moral e ética) também são comummente encontrados, dependendo da edição.
- Masorah Magna e Masorah Parva: Notas textuais marginais que registram peculiaridades ortográficas, estatísticas de palavras e outras informações para garantir a precisão da transmissão do texto. A Masorah Parva são as notas curtas nas margens laterais, enquanto a Masorah Magna são notas mais extensas nas margens superior e inferior.
Uso e Importância
A Mikraot Gedolot serve como a ferramenta de estudo primária para estudantes, rabinos e académicos envolvidos no limud Torá (estudo da Torá) tradicional. Sua importância reside na capacidade de fornecer acesso imediato a múltiplas camadas de interpretação, permitindo ao estudante mergulhar na riqueza do texto bíblico e na profundidade da tradição exegética judaica. Permite a comparação de diferentes abordagens interpretativas, aprofundando a compreensão do texto original e das suas implicações teológicas, éticas e legais.
Esta edição não apenas apresenta o texto e seus comentários, mas também encapsula a história intelectual do judaísmo. Ao estudar uma Mikraot Gedolot, os leitores são convidados a participar de um diálogo contínuo que se estende por mais de um milénio, conectando-se diretamente com as preocupações e insights de gerações de sábios. A sua estrutura facilita uma abordagem holística ao texto, onde o significado literal, as implicações haláchicas (legais), as nuances gramaticais e as dimensões místicas são exploradas em conjunto.
Relevância Contemporânea
Mesmo na era digital, a Mikraot Gedolot (MH) mantém a sua relevância e estatuto como uma obra indispensável. A edição de 2000, como outras edições modernas, muitas vezes incorpora os resultados da crítica textual mais recente, garantindo a maior precisão possível do Texto Massorético e dos comentários. Além disso, a clareza tipográfica e a organização aprimorada em edições contemporâneas tornam o material acessível a uma gama mais ampla de estudantes. Embora existam versões digitais e online que replicam o formato, a edição impressa continua a ser preferida por muitos pela sua facilidade de uso para estudo profundo e contemplativo.
A Mikraot Gedolot continua a ser a base para a educação religiosa em yeshivot e outras instituições de ensino judaico em todo o mundo. A sua capacidade de integrar o texto sagrado com a sua exegese clássica garante que a compreensão do Tanakh permaneça enraizada na tradição, ao mesmo tempo que permite a exploração intelectual. A edição MH, portanto, não é meramente um livro; é uma biblioteca em si mesma, uma ferramenta vital para a preservação e a transmissão do conhecimento bíblico e rabínico para as gerações futuras.