Personagem: Baltasar

Ilustração do personagem bíblico Baltasar (Nano Banana Pro)
A figura de Baltasar (também conhecido como Belsazar) emerge nas Escrituras Hebraicas como o último rei da Babilônia, cuja breve e fatídica aparição no livro de Daniel marca o dramático fim de um império. Sua história é um poderoso testemunho da soberania divina sobre as nações e da inevitabilidade do juízo contra a impiedade e a arrogância humana.
Sob uma perspectiva protestante evangélica, a narrativa de Baltasar transcende a mera crônica histórica, servindo como uma vívida ilustração de princípios teológicos fundamentais. Ela ressalta a autoridade das Escrituras, a precisão da profecia e a constante presença de Deus na história da salvação, mesmo em meio aos impérios pagãos.
Esta análise buscará explorar a etimologia do seu nome, o contexto histórico e a narrativa bíblica de sua ascensão e queda, a avaliação de seu caráter e papel, seu significado teológico e, finalmente, seu legado duradouro no cânon e na teologia reformada.
1. Etimologia e significado do nome
O nome Baltasar, mais comumente transliterado como Belsazar em português, deriva do aramaico babilônico בֵּלְשַׁאצַּר (Bēlšaʾṣṣar), conforme encontrado no texto massorético de Daniel 5. Este nome é uma forma teofórica, comum na Mesopotâmia antiga, que invoca uma divindade protetora.
A raiz etimológica do nome combina o elemento Bēl (Bel), que é uma contração de Baʿal ("Senhor" ou "Mestre"), frequentemente usado para se referir ao deus Marduk, a principal divindade do panteão babilônico, e o elemento šaʾ-uṣṣur, que significa "proteja o rei" ou "proteja sua vida".
Portanto, o significado literal de Baltasar é "Bel proteja o rei" ou "Bel proteja sua vida". Este nome reflete a devoção de sua família real à divindade babilônica Marduk, contrastando fortemente com a fé monoteísta de Daniel e o Deus de Israel.
Não há outras figuras bíblicas proeminentes com o mesmo nome. Embora o nome de Daniel tenha sido mudado para Beltesazar (בֵּלְטְשַׁאצַּר, Bēltəšaʾṣṣar) em Daniel 1:7, há uma distinção ortográfica e fonética clara. O nome de Daniel invoca o "príncipe de Bel", enquanto o de Baltasar é um pedido de proteção para o próprio rei.
A significância teológica do nome de Baltasar, dentro do contexto bíblico, é profunda. Ele simboliza a confiança na idolatria e na proteção de deuses falsos, que, em última análise, se mostram impotentes diante do soberano Deus de Israel. Seu nome é um eco irônico de sua própria destruição, pois Bel não o protegeu na noite em que o reino caiu.
Esta escolha onomástica sublinha o conflito central do livro de Daniel: a supremacia do único Deus verdadeiro sobre todas as divindades pagãs e os reinos terrenos. O nome de Baltasar é, assim, uma declaração de sua identidade religiosa e ideológica, que seria desafiada e desmascarada pelo poder profético de Javé.
2. Contexto histórico e narrativa bíblica
A história de Baltasar está inserida no período final do Império Neobabilônico, especificamente na noite de 12 de outubro de 539 a.C., quando a cidade de Babilônia caiu diante dos exércitos medo-persas. Este evento é narrado com detalhes dramáticos no capítulo 5 do livro de Daniel.
O contexto político da época era de grande instabilidade para a Babilônia. O rei Nabonido, pai de Baltasar, havia passado a maior parte de seu reinado na Arábia, deixando Baltasar como corregente em Babilônia. A cidade estava sob iminente ameaça dos persas, liderados por Ciro, o Grande, que já haviam conquistado grande parte do Oriente Médio.
A narrativa bíblica em Daniel 5 apresenta Baltasar como "filho" de Nabucodonosor (Daniel 5:2, 11, 13, 18). Embora historicamente Baltasar fosse filho de Nabonido, o termo "filho" (bar em aramaico) no antigo Oriente Próximo podia significar "descendente", "sucessor" ou "herdeiro", não se limitando a uma relação biológica direta. Essa é uma explicação amplamente aceita por comentaristas evangélicos para conciliar o registro bíblico com as evidências extrabíblicas.
Os principais eventos da vida de Baltasar são concentrados em uma única noite, conforme descrito em Daniel 5. Ele organizou um grande banquete para mil de seus nobres, suas esposas e concubinas, em um ato de ostentação e talvez de desafio diante da ameaça persa iminente. Durante esta festa, em um ato de extrema impiedade, Baltasar ordenou que os utensílios sagrados, levados do Templo em Jerusalém por Nabucodonosor, fossem trazidos para serem usados em seu banquete profano (Daniel 5:2).
Enquanto bebiam vinho e louvavam os "deuses de ouro, de prata, de bronze, de ferro, de madeira e de pedra" (Daniel 5:4), uma mão misteriosa apareceu e começou a escrever na parede do palácio. Este evento aterrorizou Baltasar, que convocou seus sábios e astrólogos para interpretar a escrita, mas nenhum foi capaz (Daniel 5:5-8).
A rainha-mãe (provavelmente a mãe de Nabonido, ou a avó de Baltasar) sugeriu chamar Daniel, que havia servido a Nabucodonosor. Daniel foi trazido e, após repreender Baltasar por sua arrogância e por não ter aprendido com a humilhação de Nabucodonosor (Daniel 5:22-23), interpretou a escrita: Mene, Mene, Tequel e Parsim.
A interpretação de Daniel foi um anúncio de juízo divino: "Mene: Contou Deus o teu reino, e deu cabo dele. Tequel: Pesado foste na balança, e achado em falta. Peres: Dividido foi o teu reino, e dado aos medos e aos persas" (Daniel 5:26-28). Apesar da terrível notícia, Baltasar cumpriu sua promessa e vestiu Daniel com púrpura, colocou um colar de ouro em seu pescoço e o proclamou o terceiro governante do reino (Daniel 5:29).
No entanto, a profecia se cumpriu na mesma noite. "Naquela mesma noite, Baltasar, rei dos caldeus, foi morto" (Daniel 5:30). Dario, o medo (identificado por alguns como Ciro, ou um de seus generais), assumiu o reino, marcando o fim do Império Neobabilônico e o início da hegemonia medo-persa, conforme previsto nas profecias de Daniel e Isaías.
A geografia principal da narrativa é a cidade de Babilônia, a capital do império, com suas impressionantes muralhas e palácios, símbolo do poder terreno e da idolatria. A queda de Babilônia sob Baltasar é um evento crucial que conecta a história de Israel à história das grandes potências mundiais, mostrando a mão de Deus em todas elas.
3. Caráter e papel na narrativa bíblica
O caráter de Baltasar, conforme revelado em Daniel 5, é marcado por uma arrogância flagrante, impiedade e uma notável falta de sabedoria, especialmente em contraste com seu predecessor Nabucodonosor, cuja história de humilhação e reconhecimento da soberania divina deveria ter servido de lição.
Sua principal falha moral é a impiedade manifesta em sua decisão de usar os utensílios sagrados do Templo de Jerusalém para um banquete idólatra e profano (Daniel 5:2-4). Este ato não foi apenas um desrespeito aos judeus ou a um templo estrangeiro, mas uma blasfêmia direta contra o Deus de Israel, Javé, a quem Nabucodonosor havia eventualmente reconhecido como o "Altíssimo" (Daniel 4:34-37).
Baltasar demonstrou uma cegueira espiritual profunda. Daniel o repreende diretamente por "não ter humilhado o teu coração, embora soubesses tudo isso" (Daniel 5:22), referindo-se à experiência de Nabucodonosor. Ele ignorou as lições da história e persistiu em sua rebeldia contra Deus, elevando-se contra o "Senhor do céu" (Daniel 5:23).
Apesar de seu medo inicial diante da escrita na parede (Daniel 5:6), sua reação não foi de arrependimento ou busca sincera pelo Deus de Daniel, mas sim de superstição e desespero. Ele buscou a sabedoria humana de seus magos, adivinhos e astrólogos, que se mostraram impotentes, antes de ser forçado a recorrer a Daniel.
O papel de Baltasar na narrativa bíblica é, portanto, o de um anti-herói, um exemplo vívido da condenação que aguarda aqueles que desafiam a Deus e persistem na idolatria e na arrogância. Ele serve como o catalisador para a manifestação do juízo divino sobre Babilônia e como um contraste dramático à fidelidade de Daniel.
Suas ações significativas são a organização do banquete blasfemo e sua subsequente incapacidade de decifrar a mensagem divina. A decisão de profanar os vasos do Templo é a gota d'água que precipita o juízo, demonstrando seu total desrespeito pela santidade e pelo poder do Deus de Israel.
Não há um desenvolvimento do personagem de Baltasar ao longo da narrativa; sua história é um clímax repentino e fatal. Ele é apresentado como um rei que, em sua ignorância e depravação, sela o destino de seu próprio império. Sua morte é a consumação do juízo divino e o fim de uma era de opressão para o povo de Deus.
4. Significado teológico e tipologia
A história de Baltasar possui um significado teológico multifacetado e profundo, especialmente sob a perspectiva protestante evangélica, que enfatiza a soberania de Deus e a autoridade das Escrituras.
Primeiramente, a narrativa de Baltasar é uma poderosa demonstração da soberania divina sobre os reinos humanos. Mesmo em meio a um império pagão, Deus está no controle absoluto da história, determinando o levantamento e a queda de reis e nações (Daniel 2:21; 4:17). A queda de Babilônia não foi um mero acaso geopolítico, mas o cumprimento do plano divino, predito séculos antes por profetas como Isaías (Isaías 13-14, 47) e Jeremias (Jeremias 50-51).
Em segundo lugar, a história de Baltasar ilustra as consequências do pecado e da impiedade. Sua arrogância, idolatria e, acima de tudo, sua blasfêmia contra o Deus de Israel ao profanar os vasos sagrados do Templo, são severamente julgadas. Ele é um arquétipo do orgulho humano que se recusa a reconhecer a autoridade divina, mesmo diante de evidências claras (Daniel 5:22-23). A mensagem do muro – "Pesado foste na balança, e achado em falta" (Daniel 5:27) – ressoa como um aviso atemporal contra a autoexaltação e a rebelião contra Deus.
Embora Baltasar não seja uma figura tipológica direta de Cristo, o evento da queda de Babilônia sob seu reinado tem uma profunda significância tipológica, apontando para o juízo final de Deus sobre toda a impiedade e sobre o "sistema mundano" que se opõe a Ele. O Novo Testamento, particularmente o livro de Apocalipse, utiliza a queda da Babilônia histórica como um tipo para a queda da "Babilônia, a Grande", que simboliza o sistema global de rebelião contra Deus, a idolatria e a perseguição aos santos (Apocalipse 17-18).
A destruição de Babilônia no tempo de Baltasar prefigura o julgamento escatológico de Deus sobre o mal e a instauração de Seu Reino eterno. A passagem de Apocalipse 18:2, "Caiu, caiu a grande Babilônia", ecoa a queda da Babilônia de Baltasar, servindo como um lembrete de que toda a soberba e poder humanos, quando em oposição a Deus, estão destinados à ruína.
A narrativa também enfatiza a confiabilidade da Palavra de Deus e a precisão das profecias. Daniel, o profeta de Deus, não apenas interpreta a mensagem divina, mas também anuncia o cumprimento iminente do juízo. Isso reforça a crença evangélica na inerrância e infalibilidade da Bíblia como a revelação inspirada de Deus.
A história de Baltasar, portanto, está profundamente conectada a temas teológicos centrais como o juízo divino, a santidade de Deus, a fidelidade de Deus às Suas promessas (mesmo em meio ao exílio de Israel), e a exigência de obediência e humildade diante do Criador. Ela serve como um poderoso ensinamento sobre a futilidade da idolatria e a inevitabilidade da prestação de contas diante do Senhor do céu.
5. Legado bíblico-teológico e referências canônicas
O legado de Baltasar na teologia bíblica é primariamente consolidado no livro de Daniel, onde sua história serve como um ponto de virada crucial na narrativa do exílio babilônico e da ascensão de impérios. Ele é uma figura que, embora brevemente mencionada, tem um impacto desproporcional na demonstração dos atributos divinos.
Fora de Daniel 5, não há menções diretas de Baltasar em outros livros canônicos do Antigo ou Novo Testamento. Sua relevância, contudo, transcende a mera aparição textual, pois o evento de sua queda é um cumprimento profético e um marco na história da salvação.
Sua história contribui significativamente para a teologia bíblica, especialmente no que diz respeito à Teologia da História e à Soberania Divina. Ela demonstra que Deus é o Senhor da história, controlando os destinos das nações e cumprindo Seus propósitos através delas, mesmo que essas nações sejam pagãs e hostis ao Seu povo. Este tema é central no livro de Daniel e ecoa em toda a Escritura.
Na tradição interpretativa judaica e cristã, Baltasar é consistentemente visto como um exemplo de impiedade e arrogância que leva à ruína. Sua história é um conto de advertência sobre o perigo de desprezar a Deus e Suas leis. A queda de Babilônia sob Baltasar é um ponto de referência para o juízo divino sobre os reinos terrenos.
A questão da relação entre Baltasar e Nabucodonosor (filho versus neto/sucessor) tem sido um ponto de discussão, mas a descoberta de evidências extrabíblicas, como a Crônica de Nabonido e a Cilindro de Ciro, que confirmam Nabonido como o último rei da Babilônia e Baltasar como seu filho e corregente, tem solidificado a precisão histórica do relato bíblico, sob a interpretação de que "filho" pode significar "descendente" ou "sucessor". Teólogos como Gleason Archer e Kenneth Kitchen têm defendido vigorosamente a historicidade de Daniel e a precisão de suas descrições.
Na teologia reformada e evangélica, a narrativa de Baltasar é frequentemente utilizada para ilustrar a doutrina da providência de Deus. Ela enfatiza que Deus não apenas criou o mundo, mas ativamente o sustenta e governa, intervindo na história humana para cumprir Seus planos. A queda de Babilônia é um testemunho irrefutável de que "o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer" (Daniel 4:17, 25, 32; 5:21).
A história de Baltasar é crucial para a compreensão do cânon, pois ela preenche uma lacuna histórica importante, detalhando a transição do Império Babilônico para o Medo-Persa, um evento profetizado por Daniel em suas visões das estátuas e das feras (Daniel 2, 7). Essa transição é fundamental para o desenvolvimento da história redentora, preparando o cenário para o retorno dos judeus do exílio e a reconstrução do Templo.
Assim, a figura de Baltasar, embora de curta duração, é um pilar teológico que sustenta a verdade da soberania divina, a certeza do juízo para os ímpios e a fidelidade de Deus em cumprir Suas profecias, elementos essenciais para a fé protestante evangélica.