Personagem: Mateus

Ilustração do personagem bíblico Mateus (Nano Banana Pro)
A figura de Mateus, um dos doze apóstolos de Jesus Cristo e tradicionalmente o autor do primeiro Evangelho do Novo Testamento, é de suma importância para a compreensão da mensagem cristã. Sua história é um testemunho vívido da graça transformadora de Deus e da inclusão radical no Reino de Cristo.
De um desprezado coletor de impostos a um dos pilares da igreja primitiva, a vida de Mateus ilustra a capacidade de Jesus de chamar e capacitar aqueles que a sociedade considerava indignos. Sua contribuição literária, o Evangelho que leva seu nome, oferece uma perspectiva única e profundamente teológica sobre a vida, os ensinamentos e a obra redentora do Messias.
1. Etimologia e significado do nome
O nome Mateus deriva do grego Matthaios (Ματθαῖος), que por sua vez é uma transliteração do aramaico Mattai (מַתַּי) ou, mais formalmente, do hebraico Mattityahu (מַתִּתְיָהוּ). A raiz etimológica do nome combina mattat (מַתָּת), que significa "dom" ou "presente", e Yah (יָהּ), uma forma abreviada do tetragrama YHWH (יהוה), o nome de Deus.
Assim, o significado literal do nome Mateus é "dom de Yahweh" ou "presente de Deus". Esta significância onomástica é profundamente irônica e teológica, considerando a profissão inicial de Mateus como coletor de impostos, uma ocupação que o tornava socialmente marginalizado e espiritualmente desprezado pelos judeus de sua época.
Apesar de seu nome significar "dom de Deus", ele era visto como um traidor e pecador. Contudo, Jesus o transformou em um verdadeiro "dom" para o Reino de Deus, um apóstolo e evangelista. O nome, portanto, prefigura a graça divina que o alcançaria, tornando-o um instrumento valioso na proclamação do Evangelho.
É importante notar que Mateus é também identificado como Levi, filho de Alfeu, em Marcos 2:14 e Lucas 5:27. A tradição cristã primitiva geralmente aceita que Levi e Mateus são a mesma pessoa. Não é incomum que judeus tivessem dois nomes, um hebraico/aramaico e outro possivelmente grego ou romano, ou mesmo um nome de família e um nome pessoal.
O nome Levi, por si só, tem uma conotação sacerdotal, sendo o nome de uma das doze tribos de Israel, da qual os sacerdotes eram descendentes. Se Mateus fosse de fato da tribo de Levi, sua escolha por uma profissão tão profana como a de coletor de impostos seria ainda mais chocante e um indicativo da profundidade de sua queda social e religiosa.
No entanto, não há outros personagens bíblicos proeminentes com o nome Mateus que sejam diretamente comparáveis a ele em termos de significado teológico ou papel na narrativa do Novo Testamento. A singularidade de sua história e nome reforça a mensagem da soberania de Deus em escolher e transformar.
1.1. Variações do nome e sua relevância
A identificação de Mateus com Levi é crucial para entender a profundidade de sua conversão. Levi era um nome de grande prestígio religioso em Israel, enquanto Mateus (como coletor de impostos) era um nome que evocava desgraça. A mudança ou uso alternado desses nomes pode simbolizar a transição de sua antiga vida para a nova identidade em Cristo.
A menção de "Levi, filho de Alfeu" por Marcos e Lucas, e simplesmente "Mateus" por seu próprio Evangelho (Mateus 9:9), pode ser um ato de humildade do próprio autor. Ele pode ter escolhido usar o nome que o identificava com sua vida de pecador, em vez de um nome que carregava conotações sacerdotais, para enfatizar a graça que o salvou.
Essa escolha ressalta a mensagem central do Evangelho de Mateus: a vinda de Jesus para salvar os pecadores e chamar os marginalizados. O nome "presente de Deus" torna-se, então, uma profecia cumprida em sua própria vida e ministério, onde ele se tornou um testemunho vivo do poder redentor de Cristo.
2. Contexto histórico e narrativa bíblica
A vida de Mateus se desenrola no cenário da Galileia do século I d.C., uma região sob o domínio romano, mas com uma forte identidade judaica. Este período foi marcado por tensões políticas, sociais e religiosas intensas. A Judeia e a Galileia eram províncias romanas, e a presença de coletores de impostos era um lembrete constante da ocupação estrangeira.
Os coletores de impostos, ou publicanos (do latim publicani), eram judeus que trabalhavam para o Império Romano, arrecadando impostos de seus próprios compatriotas. Eles eram amplamente desprezados, considerados traidores do seu povo, ladrões e impuros, pois frequentemente exigiam mais do que o devido e lidavam com gentios.
O Evangelho de Mateus (Mateus 9:9) e os Evangelhos de Marcos (Marcos 2:14) e Lucas (Lucas 5:27) descrevem o chamado de Mateus enquanto ele estava sentado na coletoria de impostos em Cafarnaum. Cafarnaum era uma cidade portuária importante na costa noroeste do Mar da Galileia, um centro comercial e de pesca, ideal para uma alfândega.
A chamada de Mateus por Jesus é um dos momentos mais emblemáticos de seu ministério, demonstrando a natureza inclusiva e revolucionária do Reino de Deus. Enquanto a sociedade judaica o ostracizava, Jesus o chamou para ser um de seus discípulos mais próximos, um apóstolo.
2.1. O chamado e o banquete de Mateus
A narrativa do chamado de Mateus é concisa, mas poderosa. Jesus, ao passar pela alfândega, simplesmente diz: "Segue-me" (Mateus 9:9). A resposta de Mateus é imediata e sem hesitação: "Ele se levantou e o seguiu" (Mateus 9:9). Essa obediência instantânea é um testemunho de sua fé e da autoridade irresistível de Jesus.
Após seu chamado, Mateus oferece um grande banquete em sua casa, onde Jesus e seus discípulos se sentam à mesa com muitos coletores de impostos e outros "pecadores" (Mateus 9:10; Marcos 2:15; Lucas 5:29). Este evento provoca a indignação dos fariseus e escribas, que questionam a conduta de Jesus.
A resposta de Jesus a essa crítica é fundamental para a teologia de sua missão: "Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide e aprendei o que significa: 'Misericórdia quero, e não sacrifício.' Pois não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento" (Mateus 9:12-13, citando Oseias 6:6). Este é um dos versículos chave que define a inclusão de Mateus.
Este episódio não apenas destaca a nova vida de Mateus, mas também serve como uma parábola viva da missão de Jesus de alcançar os marginalizados e os que se reconhecem como pecadores. A casa de Mateus se torna um lugar de comunhão e demonstração da graça divina, não de exclusão.
2.2. Mateus como apóstolo
Após seu chamado, Mateus é incluído na lista dos doze apóstolos em todos os sinóticos (Mateus 10:3; Marcos 3:18; Lucas 6:15) e em Atos 1:13. Seu nome aparece consistentemente no sétimo ou oitavo lugar nas listas apostólicas, geralmente associado a Tomé ou Tiago, filho de Alfeu.
A inclusão de um coletor de impostos entre os doze é um ato radical que desafia as convenções sociais e religiosas da época. Isso sublinha a universalidade do chamado de Jesus e a diversidade daqueles que Ele escolhe para serem seus mensageiros, independentemente de seu passado ou status social.
A partir de seu chamado e inclusão no círculo apostólico, as Escrituras fornecem poucas informações adicionais sobre as atividades de Mateus, além de sua presença nas listas. Essa discrição, especialmente em seu próprio Evangelho, pode ser interpretada como um sinal de humildade e foco na mensagem de Cristo, em vez de em si mesmo.
3. Caráter e papel na narrativa bíblica
O caráter de Mateus, embora pouco detalhado nos Evangelhos, é profundamente revelado por sua ocupação e sua resposta ao chamado de Jesus. Como coletor de impostos (telōnēs, τελώνης), Mateus estava em uma profissão que exigia habilidades de escrita, contabilidade e organização, características que podem ter sido úteis em seu papel como evangelista.
No entanto, a sociedade o via como um pecador público, um extorsor e um traidor de seu povo. Essa percepção social moldava sua identidade e o isolava da comunidade religiosa. A escolha de Jesus por Mateus, portanto, não foi apenas um ato de graça, mas também uma declaração profética sobre quem Jesus veio salvar.
A virtude mais proeminente de Mateus é sua obediência imediata e incondicional ao chamado de Jesus. Sem questionar, sem hesitar, ele "se levantou e o seguiu" (Mateus 9:9). Essa prontidão para abandonar uma vida de lucro e status (ainda que socialmente desprezado, era financeiramente vantajosa) demonstra uma fé genuína e um coração aberto à mensagem de Cristo.
Sua humildade também é evidente. Em seu próprio Evangelho, ele se identifica como "Mateus, o coletor de impostos" (Mateus 10:3), enquanto Marcos e Lucas simplesmente o chamam de Levi. Essa autoidentificação com seu passado pecaminoso serve para magnificar a graça de Deus que o transformou, um tema central para a teologia evangélica.
O papel de Mateus na narrativa bíblica é, antes de tudo, o de um apóstolo, uma testemunha ocular da vida, ministério, morte e ressurreição de Jesus. Ele foi comissionado a proclamar o Evangelho e a fazer discípulos de todas as nações (Mateus 28:19-20). Sua presença entre os doze valida a amplitude do alcance de Jesus aos pecadores.
3.1. O papel do coletor de impostos transformado
A profissão de coletor de impostos de Mateus é crucial para entender seu papel simbólico e teológico. Ele representa o pecador por excelência que é alcançado pela graça de Deus. Sua inclusão entre os apóstolos quebrou barreiras sociais e religiosas, mostrando que o Reino de Deus não é exclusivo para os "justos" ou os religiosos.
A decisão de Jesus de jantar na casa de Mateus com outros coletores de impostos e pecadores (Mateus 9:10-11) foi um ato deliberado que desafiou as normas da pureza judaica. Este evento não só marcou a aceitação de Mateus, mas também demonstrou o amor e a misericórdia de Jesus por aqueles que eram considerados impuros e indignos.
A transformação de Mateus de um agente do Império Romano, que oprimia seu próprio povo, para um arauto do Reino de Deus é um poderoso testemunho da redenção. Ele se tornou um exemplo vivo da verdade de que ninguém está além do alcance da graça salvadora de Cristo, independentemente de seu passado ou reputação.
Embora as Escrituras não registrem ações significativas de Mateus após o chamado e o banquete, sua inclusão no círculo íntimo de Jesus e, posteriormente, entre os apóstolos que receberam o Espírito Santo em Pentecostes (Atos 1:13), indica sua lealdade e compromisso contínuo com a missão de Cristo. Sua maior contribuição, no entanto, seria sua autoria do Evangelho.
4. Significado teológico e tipologia
O significado teológico de Mateus é multifacetado, servindo como um poderoso exemplo da graça soberana de Deus e da natureza inclusiva do evangelho. Sua história demonstra que a salvação não depende do mérito humano ou do status social, mas da misericórdia divina e da fé na chamada de Cristo.
Mateus é uma prefiguração viva da mensagem de Jesus em Lucas 19:10: "Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido". Ele era "perdido" aos olhos da sociedade e, provavelmente, aos seus próprios olhos, mas foi encontrado e restaurado por Jesus, tornando-se um "dom de Deus" em seu sentido mais verdadeiro.
Sua conversão também reforça o tema da nova aliança, onde a pureza ritual e as distinções sociais são secundárias à transformação interior e à fé. A inclusão de um publicano entre os apóstolos sinaliza a ruptura com as barreiras que separavam os "justos" dos "pecadores" na antiga ordem judaica.
A citação de Oseias 6:6 por Jesus em Mateus 9:13 ("Misericórdia quero, e não sacrifício") é central para a compreensão da vocação de Mateus e da missão de Jesus. Ela enfatiza que a verdadeira religião reside na compaixão e no amor ativo, em vez de na observância ritualística ou na exclusão dos impuros.
A vida de Mateus ilustra a doutrina da justificação pela graça mediante a fé. Ele não foi chamado por ser digno, mas foi tornado digno pela graça de Deus. Sua história é um testemunho da verdade de que "Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes" (1 Coríntios 1:27).
4.1. O Evangelho de Mateus e sua teologia
A maior contribuição teológica de Mateus é, sem dúvida, o Evangelho que leva seu nome. Embora o próprio Evangelho não declare explicitamente sua autoria, a tradição da igreja primitiva, desde Papias de Hierápolis (c. 60-130 d.C.), consistentemente atribuiu a autoria a Mateus, o coletor de impostos e apóstolo.
O Evangelho de Mateus é notável por sua perspectiva judaica e sua ênfase em Jesus como o Messias prometido do Antigo Testamento. Ele frequentemente utiliza a fórmula "para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta", citando profecias do Antigo Testamento para demonstrar que Jesus é o cumprimento das expectativas messiânicas de Israel.
Este Evangelho apresenta Jesus como o novo Moisés, que entrega a nova lei no Sermão da Montanha (Mateus 5-7), e como o Rei da linhagem de Davi, cujo Reino é espiritual e universal. A genealogia no início do Evangelho (Mateus 1:1-17) traça a linhagem de Jesus até Davi e Abraão, estabelecendo suas credenciais messiânicas e sua conexão com as promessas da aliança.
O Evangelho de Mateus também é conhecido por seu foco no discipulado, na ética do Reino e na natureza da Igreja (a única vez que a palavra ekklēsia, igreja, aparece nos Evangelhos é em Mateus 16:18 e 18:17). Ele enfatiza a necessidade de obediência aos ensinamentos de Jesus e a importância da missão global.
A teologia de Mateus, como autor, reflete sua própria experiência de conversão: a graça de Deus estendida aos marginalizados, a transformação de pecadores em discípulos e a universalidade do Reino de Cristo que transcende as barreiras étnicas e sociais. Ele demonstra que Jesus veio para salvar tanto judeus quanto gentios, chamando todos ao arrependimento e à fé.
5. Legado bíblico-teológico e referências canônicas
O legado de Mateus na teologia bíblica é imenso, principalmente através de seu Evangelho, que ocupa uma posição proeminente no cânon do Novo Testamento. O Evangelho de Mateus tem sido historicamente o livro de entrada para muitos cristãos, servindo como uma ponte crucial entre o Antigo e o Novo Testamento.
Sua autoria é um testemunho da capacidade de Deus de usar pessoas de todas as esferas da vida, mesmo aquelas consideradas socialmente baixas, para propósitos divinos. A tradição da igreja primitiva, conforme atestado por Papias, Irineu e Orígenes, indica que Mateus escreveu seu Evangelho originalmente em aramaico (hebraico), o que pode explicar seu profundo conhecimento das Escrituras judaicas e sua abordagem judaica da mensagem de Jesus.
As contribuições literárias do Evangelho de Mateus incluem narrativas exclusivas como a visita dos Magos (Mateus 2:1-12), a Fuga para o Egito (Mateus 2:13-23), o Sermão da Montanha (Mateus 5-7), várias parábolas do Reino (por exemplo, o Joio e o Trigo, Mateus 13:24-30; as Dez Virgens, Mateus 25:1-13) e os detalhes do julgamento final (Mateus 25:31-46).
A influência de Mateus na teologia bíblica é profunda. Ele moldou a compreensão da igreja primitiva sobre a identidade messiânica de Jesus, a continuidade entre as promessas do Antigo Testamento e seu cumprimento em Cristo, e a natureza do Reino de Deus. Sua ênfase na ética do Reino e no discipulado continua a ser fundamental para a fé cristã.
Na teologia reformada e evangélica, Mateus é celebrado como um exemplo da graça transformadora e da eleição soberana de Deus. Sua história é frequentemente citada para ilustrar que a salvação é para todos, independentemente de seu passado, e que Deus chama os indignos para realizar sua obra.
5.1. Mateus na tradição e na igreja
A tradição cristã extra-canônica oferece algumas informações sobre a vida de Mateus após a ascensão de Jesus. Ele é tradicionalmente considerado um mártir, embora os relatos sobre o local e a forma de sua morte variem. Algumas tradições o colocam pregando na Etiópia, outras na Pártia, na Pérsia ou na Síria.
Essas tradições, embora não canônicas, refletem a compreensão da igreja primitiva sobre o compromisso apostólico de Mateus de levar o Evangelho aos gentios, cumprindo a Grande Comissão (Mateus 28:19-20). Ele é venerado como santo por várias denominações cristãs, sendo seu dia festivo celebrado em 21 de setembro.
O Evangelho de Mateus é fundamental para a compreensão da relação entre a lei e a graça, a identidade judaica de Jesus e a universalidade de sua missão. Ele fornece um arcabouço teológico robusto para entender a fundação da Igreja e a ética do discipulado, sendo uma referência constante em estudos teológicos e sermões.
Em suma, a figura de Mateus, o coletor de impostos que se tornou apóstolo e evangelista, é um testemunho eloquente do poder redentor de Jesus Cristo. Seu nome, "dom de Deus", ressoa com a verdade de que Deus escolhe os humildes e desprezados para serem instrumentos de sua graça, oferecendo um legado bíblico-teológico que continua a inspirar e instruir a Igreja em todas as gerações.