Personagem: Querubim

Ilustração do personagem bíblico Querubim (Nano Banana Pro)
A figura de Querubim (plural: Querubins) é uma das mais enigmáticas e teologicamente significativas no cenário bíblico. Longe de ser um personagem humano com uma biografia linear, o Querubim representa uma classe de seres celestiais, anjos poderosos associados diretamente à glória, santidade e soberania de Deus.
Sua presença nas Escrituras abrange desde o jardim do Éden até as visões apocalípticas do trono divino, desempenhando papéis cruciais que revelam aspectos fundamentais do caráter de Deus e do plano redentor. Esta análise busca explorar o significado onomástico, o contexto narrativo, o papel e o profundo significado teológico dos Querubins sob uma perspectiva protestante evangélica.
1. Etimologia e significado do nome
O nome Querubim deriva do hebraico כְּרוּב (keruv), cujo plural é כְּרוּבִים (keruvim). A etimologia exata é objeto de debate entre os estudiosos, mas várias propostas foram levantadas para desvendar sua raiz e significado originais.
Uma das teorias mais aceitas conecta keruv ao termo acadiano karibu, que se referia a seres divinos ou semidivinos, muitas vezes representados como guardiões de templos e palácios. O verbo karābu em acadiano significa "orar", "abençoar" ou "estar próximo", sugerindo uma função de intercessão ou proximidade com a divindade.
Outra possibilidade etimológica aponta para uma raiz hebraica que significa "estar perto" ou "guardar", o que se alinha perfeitamente com o papel dos Querubins na narrativa bíblica. Essa raiz enfatizaria sua função como protetores da santidade divina e da presença de Deus.
Literalmente, o nome Querubim evoca a ideia de um ser majestoso e poderoso, frequentemente associado à guarda de locais sagrados ou à manifestação da glória divina. Simbolicamente, eles representam a transcendência de Deus, a separação entre o sagrado e o profano, e a inacessibilidade da santidade divina ao pecado humano.
No Novo Testamento, embora não haja um equivalente grego direto para a palavra Querubim, ela é transliterada como χερουβίμ (cheroubim), como visto em Hebreus 9:5. Não há outros personagens bíblicos humanos ou angelicais que compartilhem este nome específico, o que reforça sua identidade única como uma classe particular de seres celestiais.
A significância teológica do nome reside na sua conotação de guardiões da santidade de Deus e da sua glória. Os Querubins são seres que enfatizam a majestade, o poder e a pureza de Deus, servindo como lembretes visuais e funcionais da distância entre o Criador santo e a criação caída.
2. Contexto histórico e narrativa bíblica
A presença dos Querubins na Bíblia é notável por sua consistência e importância desde os primórdios da história da salvação até as visões do fim dos tempos. Eles não estão confinados a um único período, mas aparecem em momentos cruciais da revelação divina.
O primeiro registro de Querubins encontra-se em Gênesis 3:24, logo após a Queda do homem. Ali, Deus os coloca a leste do jardim do Éden, juntamente com uma espada flamejante que se revolvia, para guardar o caminho da Árvore da Vida. Este evento marca a separação entre a humanidade pecaminosa e a vida eterna na presença de Deus.
Posteriormente, os Querubins são proeminentemente descritos nas instruções para a construção do Tabernáculo e, mais tarde, do Templo de Salomão. Em Êxodo 25:18-22, Deus ordena que duas figuras de Querubins de ouro sejam feitas e colocadas sobre o propiciatório da Arca da Aliança, com suas asas estendidas, cobrindo-o. Era entre esses Querubins que Deus prometia encontrar-se com Moisés e falar com ele.
Além da Arca, os Querubins adornavam o véu do Tabernáculo (Êxodo 26:31), as cortinas internas (Êxodo 26:1), e as paredes do Templo (1 Reis 6:29). Eles também foram esculpidos em madeira de oliveira e revestidos de ouro, com dez côvados de altura, no Santo dos Santos do Templo de Salomão, com suas asas tocando as paredes e uma à outra (1 Reis 6:23-28; 2 Crônicas 3:10-13).
No livro do profeta Ezequiel, os Querubins assumem uma forma mais complexa e simbólica. Na visão do vale dos ossos secos e da glória de Deus deixando o Templo, Ezequiel descreve seres com quatro faces (homem, leão, boi e águia), quatro asas e mãos humanas debaixo das asas (Ezequiel 1:5-12; 10:1-22). Estes seres são identificados como Querubins e são parte integrante do carro-trono de Deus, movendo-se com o Espírito.
A geografia associada aos Querubins inclui o Éden, o deserto (com o Tabernáculo), Jerusalém (com o Templo) e, por fim, o cenário celestial das visões proféticas. Suas relações são primariamente com Deus, servindo como instrumentos de Sua vontade e manifestações de Sua glória. Eles se relacionam com a humanidade principalmente como guardiões ou como parte da revelação divina.
Os Querubins são, portanto, figuras constantes que acompanham a revelação progressiva de Deus, desde a Queda até a consumação dos tempos, sempre marcando a presença divina, a santidade e a soberania do Senhor sobre toda a criação.
3. Caráter e papel na narrativa bíblica
Os Querubins, como seres celestiais, possuem um caráter distinto de santidade, poder e obediência absoluta a Deus. Não são retratados com as falhas ou fraquezas morais que caracterizam a humanidade, mas como agentes perfeitos da vontade divina.
Sua principal virtude é a lealdade inabalável e a dedicação total ao serviço de Deus. Eles são retratados como seres que executam ordens divinas sem questionamento, demonstrando uma submissão completa à soberania do Criador, um modelo de obediência que a Escritura frequentemente exalta.
A vocação primordial dos Querubins é a de guardiões da santidade de Deus. No Éden, eles guardam o caminho da Árvore da Vida, impedindo que a humanidade caída tenha acesso direto à vida eterna em seu estado pecaminoso (Gênesis 3:24). Esta função de sentinelas reflete a natureza santa de Deus, que não pode coabitar com o pecado.
No Tabernáculo e no Templo, sua presença na Arca da Aliança e nas decorações do Santo dos Santos reforça a ideia de que o lugar da habitação de Deus é santo e separado. Eles "cobrem" o propiciatório, o lugar da expiação, simbolizando a proteção da santidade divina mesmo no contexto da graça e do perdão (Êxodo 25:20).
Além de guardiões, os Querubins desempenham o papel de portadores ou suportes do trono de Deus. Em Salmos 18:10, é dito que Deus "cavalgou sobre um Querubim e voou". A visão de Ezequiel os descreve como o "carro-trono" da glória de Deus, indicando que eles são veículos da Sua presença e poder soberano, movendo-se conforme a direção do Espírito (Ezequiel 1:20-21).
Finalmente, em visões apocalípticas como a de João em Apocalipse 4:6-9 (onde os "quatro seres viventes" são amplamente interpretados como Querubins ou seres semelhantes), eles são adoradores incessantes de Deus, proclamando Sua santidade e majestade dia e noite. Suas ações significativas incluem a guarda do Éden, o sombreamento da Arca, o transporte da glória divina e a adoração contínua.
O desenvolvimento do personagem, se pudermos usar o termo para seres celestiais, está na progressão da sua representação. De simples guardiões no Gênesis, eles se tornam mais complexos e multifacetados nas visões proféticas, revelando a profundidade e a glória da majestade de Deus de formas cada vez mais ricas e detalhadas, culminando na adoração perpétua no céu.
4. Significado teológico e tipologia
O significado teológico dos Querubins é profundo e multifacetado, servindo como um elo crucial na história redentora e na revelação progressiva de Deus. Eles são figuras que apontam para verdades essenciais sobre a natureza divina e o plano de salvação.
No contexto pós-Queda, os Querubins no Éden simbolizam a santidade de Deus e as consequências do pecado. Ao barrar o acesso à Árvore da Vida, eles ilustram a separação que o pecado criou entre a humanidade e a fonte da vida divina, enfatizando a necessidade de uma intervenção divina para restaurar essa comunhão (Gênesis 3:24).
No Tabernáculo e no Templo, os Querubins sobre o propiciatório e nas decorações sagradas sublinham a presença de Deus entre Seu povo, mas também a Sua inacessibilidade direta devido à Sua santidade. Eles indicam que o acesso a Deus requer mediação e expiação, apontando para o sistema sacrificial da Antiga Aliança.
A tipologia cristocêntrica dos Querubins é notável. Se eles guardavam o caminho para a Árvore da Vida, Jesus Cristo se apresenta como "o caminho, e a verdade, e a vida" (João 14:6), a própria Árvore da Vida acessível. O que os Querubins proibiram na Queda, Cristo tornou acessível através de Sua obra redentora.
A presença dos Querubins no Santo dos Santos, cobrindo o propiciatório, prefigura a obra de Cristo como o verdadeiro Propiciatório. Em Romanos 3:25, Paulo declara que Deus "o propôs como propiciação [ἱλαστήριον, hilastērion] pela fé no seu sangue", fazendo referência ao lugar onde a expiação ocorria, que era sombreado pelos Querubins.
A glória de Deus que era manifestada entre os Querubins (1 Samuel 4:4; 2 Samuel 6:2; Salmos 80:1) encontra seu cumprimento supremo em Jesus Cristo, que é "o resplendor da sua glória e a expressão exata do seu Ser" (Hebreus 1:3). Cristo é a revelação máxima e final da glória divina que os Querubins simbolizavam e carregavam.
O Novo Testamento faz referência aos Querubins em Hebreus 9:5, ao descrever os elementos do Santo dos Santos. Mais significativamente, os "quatro seres viventes" de Apocalipse 4:6-9, com suas múltiplas faces e incessante adoração, são amplamente considerados como uma continuação ou evolução da representação dos Querubins e serafins, agora adorando o Cordeiro e Aquele que está assentado no trono.
Os Querubins conectam-se a temas teológicos centrais como a santidade de Deus, a gravidade do pecado, a necessidade de redenção e a soberania divina. Eles demonstram que Deus é santo e justo, e que o acesso à Sua presença é um privilégio concedido pela Sua graça, plenamente revelada em Cristo, que rasgou o véu que antes os Querubins adornavam, abrindo um novo e vivo caminho (Mateus 27:51; Hebreus 10:19-20).
5. Legado bíblico-teológico e referências canônicas
A figura dos Querubins deixou um legado indelével na teologia bíblica, influenciando a compreensão da natureza de Deus, da santidade e da adoração. Sua presença em diversos livros do cânon bíblico atesta sua importância contínua.
Eles são mencionados em Gênesis, Êxodo, Números (indiretamente, nas instruções para o Tabernáculo), 1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis, 2 Reis, 1 Crônicas, 2 Crônicas, Salmos (Salmos 18:10; 80:1; 99:1), Ezequiel, Hebreus e Apocalipse. Esta abrangência demonstra que a compreensão de Deus e de Sua presença esteve sempre ligada à imagem desses seres celestiais.
Embora os Querubins não sejam autores de livros bíblicos, sua representação é parte integrante da literatura profética e apocalíptica, especialmente em Ezequiel e Apocalipse. Eles fornecem a linguagem imagética para descrever a glória e a majestade do trono de Deus, contribuindo para a rica simbologia da teologia bíblica.
A influência dos Querubins na teologia bíblica é profunda. No Antigo Testamento, eles estabelecem o padrão da santidade divina e a necessidade de reverência no culto. Eles servem como lembretes constantes de que Deus é transcendente e que a Sua presença é tanto gloriosa quanto perigosa para o pecador não redimido. Eles são a "cerca" da santidade de Deus.
No Novo Testamento, a tipologia dos Querubins é cumprida e transcendida em Cristo. A barreira que eles representavam foi removida pela morte de Cristo. A teologia do Novo Testamento, particularmente a epístola aos Hebreus, utiliza o simbolismo do Santo dos Santos e dos Querubins para exaltar a superioridade do sacerdócio e sacrifício de Cristo (Hebreus 9:5).
Na tradição interpretativa judaica, os Querubins são figuras centrais na mística da Merkabah (carro-trono), onde as visões de Ezequiel são exploradas para entender a natureza da glória divina. Na tradição cristã, eles são frequentemente representados na arte sacra, simbolizando a presença divina, a proteção e a adoração celestial.
A teologia reformada e evangélica conservadora enfatiza a autoridade bíblica na compreensão dos Querubins. Eles são vistos como seres criados por Deus, subservientes à Sua vontade, e não objetos de adoração. Sua função primária é glorificar a Deus e executar Seus propósitos, especialmente na manutenção da Sua santidade e na revelação da Sua glória.
Para a compreensão do cânon, os Querubins são essenciais porque ilustram a consistente natureza de Deus através de todas as eras. Eles nos ensinam sobre a santidade inegociável de Deus, a seriedade do pecado, a necessidade de um mediador e a glória que aguarda aqueles que são redimidos. Eles são um testemunho constante da majestade do Senhor, desde a criação até a consumação dos séculos, apontando sempre para a soberania e a glória do Deus Trino.