Personagem: Sama

Ilustração do personagem bíblico Sama (Nano Banana Pro)
A figura de Sama, ou Shammah em hebraico, embora não seja das mais proeminentes nas Escrituras, emerge como um exemplo notável de coragem e fidelidade em um momento crucial da história de Israel. Sua história, concisamente narrada, oferece ricas oportunidades para uma análise teológica profunda, especialmente sob a perspectiva protestante evangélica. Este verbete de dicionário bíblico-teológico se propõe a explorar o significado onomástico, o contexto histórico, o caráter, a relevância teológica e o legado deste personagem, destacando como sua vida, mesmo que brevemente descrita, aponta para princípios eternos da fé e da soberania divina.
A análise da vida de Sama, em particular Sama, filho de Agee, o Hararita, um dos valentes de Davi, revela a importância de atos individuais de fé e bravura na edificação do reino de Deus. A perspectiva evangélica conservadora enfatiza a inerrância e a autoridade da Bíblia como a Palavra inspirada, buscando extrair lições que ressoam com a verdade do evangelho e a pessoa de Jesus Cristo. Ao examinar a história de Sama, somos convidados a refletir sobre a natureza da verdadeira coragem, a fidelidade em meio à adversidade e o impacto que um único indivíduo, capacitado por Deus, pode ter na história da redenção. Sua narrativa, embora periférica, é parte integrante do mosaico maior da revelação divina.
1. Etimologia e significado do nome
O nome Sama, transliteração do hebraico Shammah (שַׁמָּה), possui raízes etimológicas que sugerem diferentes conotações. A raiz mais provável é de um termo que significa "espanto", "desolação" ou "assombro". Outros estudiosos sugerem uma conexão com o verbo hebraico shamá’ (שָׁמַע), que significa "ouvir" ou "obedecer", embora esta seja uma derivação menos direta para a forma nominal.
No contexto bíblico, o significado de "espanto" ou "assombro" pode ser interpretado tanto de forma negativa, como "desolação", quanto de forma positiva, como "aquilo que causa admiração". Para Sama, o valente de Davi, a última interpretação parece mais adequada, visto que suas ações provocaram admiração e espanto pela sua bravura. O nome, portanto, pode ter sido profético ou descritivo de sua impactante conduta.
É importante notar que há pelo menos quatro personagens bíblicos distintos que carregam o nome Sama ou variações próximas. O mais conhecido é Sama, filho de Agee, o Hararita, um dos "Três Valentes" de Davi (2 Samuel 23:11). Outro é Sama, o terceiro filho de Jessé, irmão de Davi (1 Samuel 16:9; 1 Samuel 17:13), que é também chamado de Simeia em 2 Samuel 21:21 e Simá em 1 Crônicas 2:13.
Além destes, um descendente de Aser também é nomeado Sama (1 Crônicas 7:37), e há menção de um levita com este nome em 1 Crônicas 6:28 (versículo 13 na Vulgata), embora algumas traduções o identifiquem como Samuel. A existência de múltiplos indivíduos com o mesmo nome ou variações indica que era um nome relativamente comum no período do Antigo Testamento, mas cada um deles se distingue por seu contexto e ações.
Para a análise teológica, o foco recai primariamente em Sama, o Hararita, devido à narrativa específica de sua proeza. O significado "espanto" ou "admiração" para este Sama adquire um sentido profundo, pois sua coragem em defender um campo de lentilhas solitariamente contra os filisteus é, de fato, um ato que inspira admiração e reverência. Isso sublinha a ideia de que Deus pode usar os "pequenos" ou os "esquecidos" para realizar grandes feitos que causam impacto e glorificam Seu nome.
A etimologia do nome, portanto, não é meramente um detalhe linguístico; ela se entrelaça com o caráter e as ações do indivíduo, conferindo uma camada adicional de significado à sua história. A ressonância do nome Sama, o valente, com "aquilo que causa espanto" ou "admiração", é um testemunho da capacidade de Deus de operar maravilhas através da fé e da obediência de Seus servos, mesmo em circunstâncias adversas e aparentemente insignificantes.
2. Contexto histórico e narrativa bíblica
A vida de Sama, filho de Agee, o Hararita, está inserida no período de consolidação do reino de Davi, aproximadamente entre 1010 e 970 a.C. Este foi um tempo de transição e conflito intenso para Israel, marcado pela ascensão da monarquia davídica e pela constante ameaça dos filisteus, que eram os principais adversários de Israel na planície costeira e nas terras baixas da Judeia.
Politicamente, Israel estava emergindo de um período de reinos fragmentados sob a liderança de Saul para uma nação unificada sob Davi. Socialmente, a sociedade era predominantemente agrária, e a defesa das colheitas era vital para a sobrevivência das comunidades. Religiosamente, a nação estava sob a aliança mosaica, e a fidelidade a Javé era um imperativo, embora frequentemente desafiada pela idolatria e pela desobediência.
A principal passagem bíblica que descreve a proeza de Sama encontra-se em 2 Samuel 23:11-12 e é paralela em 1 Crônicas 11:33-34. Ele é listado entre os "Três Valentes" de Davi, embora na lista de 2 Samuel 23 ele seja categorizado após os "Três Principais" (Josebe-Bassebete, Eleazar e o próprio Sama, o Hararita, sendo um dos três). O texto de 2 Samuel 23:11-12 narra: "Depois dele, Sama, filho de Agee, o Hararita. Os filisteus ajuntaram-se em Leí, onde havia um campo cheio de lentilhas; e o povo fugira de diante dos filisteus. Mas ele se pôs no meio do campo, e o defendeu, e feriu os filisteus; e o SENHOR efetuou um grande livramento."
A localização geográfica de Leí é significativa. Era uma região frequentemente disputada com os filisteus, localizada na Sefelá ou nas terras baixas de Judá, uma área de transição entre as montanhas e a planície costeira. A menção de um "campo cheio de lentilhas" pode parecer trivial, mas para uma sociedade agrária, a perda da colheita significava fome e dependência, tornando a defesa daquele campo um ato de extrema importância estratégica e econômica para a subsistência do povo.
A narrativa não fornece detalhes genealógicos extensos para Sama, o Hararita, apenas o nome de seu pai, Agee, e sua origem, "o Hararita", que provavelmente se refere a uma localidade ou clã. Sua relação mais proeminente é com Davi, a quem ele serviu fielmente como um de seus guerreiros mais leais e corajosos. Ele é parte do seleto grupo de "valentes" que formavam a guarda de elite de Davi, homens que demonstraram extraordinária bravura e lealdade.
A fuga do "povo" diante dos filisteus destaca a solidão e a determinação de Sama. Enquanto outros recuavam, ele permaneceu firme, demonstrando uma fé inabalável na capacidade de Deus de dar a vitória. Este episódio não é apenas uma demonstração de força física, mas um testemunho de coragem moral e espiritual, um ato de resistência contra um inimigo opressor, que resultou em um "grande livramento" operado pelo próprio SENHOR.
A narrativa de Sama é um microcosmo da guerra maior entre Israel e seus inimigos, e da soberania de Deus em usar instrumentos humanos para Seus propósitos. Ele se destaca como um exemplo da fidelidade que Davi inspirava em seus homens e da dependência de Israel em relação ao poder divino para alcançar a vitória. Sua história é um lembrete vívido de que a grandeza não reside apenas em grandes exércitos, mas na disposição de um coração para lutar pela causa de Deus.
3. Caráter e papel na narrativa bíblica
O caráter de Sama, filho de Agee, o Hararita, é revelado através de uma única, mas poderosa, ação: sua defesa solitária de um campo de lentilhas contra um exército filisteu. Esta narrativa concisa em 2 Samuel 23:11-12 e 1 Crônicas 11:33-34 é um testemunho eloquente de virtudes notáveis, que o posicionam como um modelo de coragem e fidelidade no Antigo Testamento.
A principal qualidade espiritual evidenciada em Sama é sua bravura inabalável. Enquanto "o povo fugira de diante dos filisteus", ele "se pôs no meio do campo, e o defendeu". Esta decisão de permanecer e lutar, mesmo quando todos os outros recuaram, demonstra uma coragem extraordinária. Não era apenas bravura física, mas uma profunda convicção e confiança de que sua posição era justa e que Deus estava com ele.
Associada à bravura está a perseverança e a determinação. Sama não apenas enfrentou os filisteus, mas "feriu os filisteus", o que implica uma batalha contínua e bem-sucedida. Sua resiliência em um cenário onde a derrota parecia inevitável sublinha sua força de caráter e sua recusa em ceder diante da adversidade. Ele não lutou por glória pessoal, mas pela preservação de um recurso vital para o seu povo.
A lealdade também é uma característica marcante. Embora o texto não especifique sua lealdade a Davi neste episódio, sua inclusão na lista dos "valentes" de Davi sugere uma devoção inquestionável ao rei e à causa de Israel. Sua ação de proteger o campo de lentilhas pode ser vista como um ato de lealdade à nação e aos seus meios de subsistência, elementos cruciais para a estabilidade do reino de Davi.
Não há registro de pecados, fraquezas ou falhas morais documentadas para Sama nesta narrativa, ou em qualquer outra parte da Bíblia, o que realça sua imagem como um guerreiro exemplar. Sua vocação específica era a de um guerreiro, um "valente" (gibborim em hebraico) no exército de Davi, um grupo de homens selecionados por sua força, coragem e habilidade militar.
O papel desempenhado por Sama na narrativa bíblica é o de um libertador e protetor. Sua ação não foi apenas um feito militar, mas um "grande livramento" (yeshua gedolah) operado pelo SENHOR através dele. Ele não era um profeta, sacerdote ou rei, mas um guerreiro que, por sua fé e obediência, tornou-se um instrumento da providência divina. Seu ato salvou a colheita e, possivelmente, a vida de muitos.
A decisão-chave de Sama foi a de "se pôr no meio do campo" e lutar, em vez de fugir. Esta decisão solitária, contrária ao comportamento da maioria, é o ponto central de sua história. Ela demonstra que a verdadeira força não reside no número de combatentes, mas na disposição de um coração fiel e corajoso. O desenvolvimento do personagem é limitado a este evento, mas este único ato é suficiente para imortalizar seu nome entre os heróis da fé.
O exemplo de Sama ressoa profundamente na teologia evangélica, que valoriza a iniciativa individual em resposta à fé e a capacidade de Deus de usar pessoas comuns para realizar feitos extraordinários. Sua história é um lembrete de que a fidelidade em "pequenas coisas" ou em situações aparentemente insignificantes pode ter um impacto monumental, e que a verdadeira vitória vem do SENHOR, que capacita Seus servos.
4. Significado teológico e tipologia
A história de Sama, embora breve, carrega um significado teológico profundo e pode ser vista como um reflexo de verdades maiores na história da redenção. Sua ação de defender o campo de lentilhas não é apenas um feito militar, mas uma ilustração vívida de princípios espirituais que ressoam com a teologia protestante evangélica, especialmente no que tange à fé, obediência e o papel de Deus na vitória.
Em primeiro lugar, a narrativa de Sama demonstra o princípio da fidelidade em meio à adversidade. Quando todos fugiram, Sama permaneceu firme. Esta atitude é um eco da exortação neotestamentária para "permanecer firmes na fé" (1 Coríntios 16:13) e "resistir no dia mau" (Efésios 6:13). A obediência e a confiança de Sama em Deus, mesmo contra todas as probabilidades humanas, são um testemunho do poder que a fé genuína confere ao crente.
A proeza de Sama também ilustra a soberania de Deus na concessão da vitória. O texto afirma explicitamente que "o SENHOR efetuou um grande livramento" (2 Samuel 23:12). Sama foi o instrumento, mas Deus foi o autor da vitória. Esta perspectiva é central para a teologia evangélica, que reconhece que toda a salvação e libertação vêm de Deus, e que os atos humanos de fé são a resposta à Sua graça e poder (Filipenses 2:13).
Embora Sama não seja uma figura tipológica direta de Cristo no sentido clássico, sua ação pode ser interpretada de forma cristocêntrica através de temas subjacentes. A defesa de um "campo de lentilhas" — uma colheita vital para a subsistência do povo — pode ser vista como uma prefiguração da defesa de Cristo de Seu povo e de Sua "colheita" espiritual. Cristo é o maior defensor, que não apenas defende, mas redime e salva Seu povo da escravidão do pecado e da morte (Colossenses 1:13-14).
A coragem de Sama em enfrentar o inimigo sozinho, enquanto outros recuavam, pode ser vista como um leve eco da solidão de Cristo em Sua batalha contra o pecado e a morte na cruz (Marcos 14:50). Cristo, o verdadeiro Herói, permaneceu firme e obedeceu ao Pai até o fim, garantindo a vitória para todos os que Nele creem. A luta de Sama por um campo material prefigura a luta espiritual de Cristo pelo Reino de Deus.
A história de Sama conecta-se com temas teológicos centrais como a graça (Deus capacitando um homem para uma tarefa impossível), a obediência (a disposição de Sama em lutar), e o juízo (a derrota dos filisteus). Ela nos ensina que Deus usa os aparentemente fracos e as situações insignificantes para manifestar Sua glória, um tema recorrente na Escritura (1 Coríntios 1:27-29).
A ausência de menções diretas de Sama no Novo Testamento não diminui seu significado. Pelo contrário, sua história serve como um princípio ilustrativo da fé que "vence o mundo" (1 João 5:4) e da importância de "estar em pé" contra as astutas ciladas do diabo (Efésios 6:11). Ele é um exemplo prático de um "soldado de Cristo" que luta a boa batalha da fé (2 Timóteo 2:3-4; 1 Timóteo 6:12).
Desta forma, Sama, o Hararita, não é apenas um personagem histórico, mas um veículo para a revelação de verdades divinas. Sua história, interpretada à luz da teologia evangélica, reforça a doutrina de que a fé ativa e a dependência de Deus são essenciais para experimentar o "grande livramento" que Ele provê, tanto em batalhas físicas quanto espirituais, apontando sempre para a vitória definitiva alcançada por nosso Senhor Jesus Cristo.
5. Legado bíblico-teológico e referências canônicas
O legado de Sama, filho de Agee, o Hararita, embora não se traduza em uma vasta literatura ou em um complexo desenvolvimento doutrinário, é profundamente significativo para a compreensão da fé e da história de Israel no cânon bíblico. Suas menções são concisas, mas potentes, aparecendo em 2 Samuel 23:11-12, na lista dos valentes de Davi, e em sua contraparte em 1 Crônicas 11:33-34.
A inclusão de Sama nas listas dos "valentes" de Davi (gibborim) é, em si, uma honra e uma validação de sua importância. Estas listas não são meros registros genealógicos, mas catálogos de homens que demonstraram excepcional coragem, lealdade e fé, contribuindo para a ascensão e a manutenção do reino davídico. A menção em ambos os livros (Samuel e Crônicas) atesta a canonicidade e a relevância de sua história para a narrativa histórica de Israel.
Sama não deixou contribuições literárias diretas, como Salmos ou profecias. Sua "contribuição" reside no exemplo de vida, que serve como um modelo de conduta para os crentes. Sua história influencia a teologia bíblica ao ilustrar o princípio de que Deus usa indivíduos corajosos e fiéis, independentemente de sua proeminência social ou militar, para realizar Seus propósitos soberanos. Ele é um testemunho da verdade de que "a vitória vem do SENHOR" (Provérbios 21:31).
Na tradição interpretativa judaica e cristã, Sama é frequentemente citado como um exemplo de heroísmo e fé. Comentaristas evangélicos como Matthew Henry e John Gill destacam sua coragem e a providência divina em sua vitória. Charles Spurgeon, em seus sermões, frequentemente utilizava figuras como Sama para ilustrar a importância da perseverança e da fé individual em face de desafios esmagadores, enfatizando que Deus pode operar grandes coisas através de um único homem fiel.
Não há referências explícitas a Sama na literatura intertestamentária, nem ele é uma figura central na teologia reformada ou evangélica de forma a ter um tratado doutrinário específico. Contudo, os princípios que sua vida exemplifica — fé em ação, coragem, obediência e dependência de Deus — são pilares fundamentais dessas teologias. Ele representa o crente que, capacitado pelo Espírito Santo, se posiciona firmemente contra as forças do mal, defendendo os interesses do Reino de Deus.
A importância de Sama para a compreensão do cânon reside em sua função como um elo na corrente da fé. Ele é um dos muitos "heróis da fé" cujas histórias, mesmo que breves, compõem a tapeçaria da revelação progressiva de Deus. Sua narrativa reforça a ideia de que cada crente, por menor que seja seu papel, é chamado a ser fiel em sua esfera de influência, e que sua fidelidade contribui para o avanço do plano redentor de Deus.
Em suma, Sama, o Hararita, é um lembrete vívido da verdade de que a grandeza espiritual não é medida pela visibilidade ou pelo poder humano, mas pela disposição de um coração para obedecer e confiar em Deus. Seu legado é o de um homem que, por sua coragem e fé, tornou-se um instrumento de um "grande livramento" divino, e cujo exemplo continua a inspirar a Igreja a permanecer firme na defesa da verdade e dos valores do Reino de Deus, aguardando a vitória final em Cristo.