Textus Receptus
Publicada em 1550/1894
O Textus Receptus (código: TR) representa uma série de edições impressas do texto grego do Novo Testamento que serviram como a base para a maioria das traduções da Bíblia para as línguas vernáculas durante a Reforma Protestante e nos séculos subsequentes. Não se trata de uma única edição estática, mas de uma tradição textual que evoluiu a partir da primeira publicação do Novo Testamento grego impresso por Erasmo de Roterdã, em 1516, consolidando-se em edições posteriores que se tornaram amplamente aceitas.
História e Contexto
A gênese do Textus Receptus remonta ao início do século XVI, quando o humanista holandês Erasmo de Roterdã publicou seu "Novum Instrumentum omne" em 1516. Esta foi a primeira vez que o Novo Testamento grego foi impresso e disponibilizado ao público em geral. A motivação de Erasmo era fornecer um texto grego acessível para estudos e traduções, em contraste com a Vulgata Latina, que era o texto padrão da Igreja Católica Romana na época.
As edições de Erasmo foram apressadas e basearam-se em um número limitado de manuscritos gregos minúsculos (escritos em letras pequenas e cursivas), a maioria datando dos séculos XII a XV, que estavam disponíveis em Basileia. Consequentemente, o texto de Erasmo continha várias leituras que refletiam as características textuais desses manuscritos tardios. A edição de 1516 foi seguida por revisões em 1519, 1522, 1527 e 1535, com pequenas alterações textuais e correções.
Após as edições de Erasmo, outras figuras importantes contribuíram para a tradição do TR. Robert Estienne (Stephanus) publicou várias edições, sendo a de 1550, conhecida como a "Editio Regia", particularmente influente. Essa edição introduziu um aparato crítico rudimentar e, notavelmente, a divisão do texto em versículos. Posteriormente, Teodoro de Beza, sucessor de João Calvino em Genebra, publicou edições revisadas do texto grego, em 1565, 1582, 1588/89 e 1598, incorporando algumas leituras de manuscritos que ele possuía.
O termo "Textus Receptus" foi cunhado pelos impressores holandeses Bonaventura e Abraão Elzevir em 1633, em um prefácio à sua edição do Novo Testamento grego. A frase "Textum ergo habes, nunc ab omnibus receptum" ("Você tem, portanto, o texto agora recebido por todos") consolidou o nome, referindo-se à aceitação generalizada daquela forma do texto grego na Europa Protestante. As edições dos Elzevir foram baseadas principalmente nas edições de Beza e Stephanus, com poucas alterações.
Metodologia de Compilação
A metodologia empregada na criação das edições que compõem o Textus Receptus difere significativamente dos princípios da crítica textual moderna. Erasmo e seus sucessores não tinham acesso a muitos dos manuscritos mais antigos e importantes que são a base dos textos críticos contemporâneos. A compilação baseou-se primariamente em cerca de meia dúzia de manuscritos gregos minúsculos, datando do século XII em diante, que representavam o que hoje se conhece como o Texto Bizantino ou Texto Majoritário.
Apesar de ser um erudito, Erasmo trabalhou sob pressão de tempo e com recursos limitados. Para o livro do Apocalipse, por exemplo, ele tinha apenas um manuscrito incompleto. Para preencher as lacunas, Erasmo retroverteu passagens da Vulgata Latina para o grego, o que resultou em algumas leituras que não possuem suporte em nenhum manuscrito grego conhecido. As edições posteriores de Stephanus, Beza e Elzevir fizeram pequenas revisões, mas mantiveram a essência do texto de Erasmo, sem empreender uma revisão crítica exaustiva baseada em um conjunto mais amplo de evidências textuais.
Características Distintivas
O Textus Receptus possui várias características que o distinguem dos textos críticos modernos. Uma das mais notáveis é a sua adesão predominante ao Texto Bizantino, que tende a ser mais longo e harmonizado do que as formas textuais encontradas em manuscritos mais antigos (como os alexandrinos e ocidentais). Isso se manifesta em:
- Leituras mais longas: O TR frequentemente inclui palavras, frases ou até versículos inteiros que não aparecem nos manuscritos mais antigos. Um exemplo proeminente é o Comma Johanneum (1 João 5:7-8), que está presente no TR mas ausente na vasta maioria dos manuscritos gregos anteriores ao século XV.
- Harmonizações: Nos Evangelhos Sinóticos, o TR tende a harmonizar passagens paralelas, tornando-as mais consistentes entre si, o que nem sempre reflete a variação presente nos manuscritos mais antigos.
- Influência da Vulgata Latina: Devido à retroversão de Erasmo e à familiaridade com a Vulgata, algumas leituras do TR mostram traços da versão latina.
- Textos Conflacionados: Em certas passagens, o TR combina leituras variantes de diferentes manuscritos, criando um texto que pode não ter um suporte unânime em nenhuma única tradição textual.
Uso e Importância
A importância histórica do Textus Receptus é inegável. Por mais de três séculos, ele serviu como o texto grego padrão do Novo Testamento para o mundo protestante. Foi a base para as traduções que moldaram a teologia e a espiritualidade de milhões de pessoas. As traduções mais influentes que utilizaram o TR incluem:
- A Bíblia de Lutero (alemão, 1534)
- A King James Version (KJV) (inglês, 1611)
- A Geneva Bible (inglês, 1560)
- As primeiras edições da Bíblia de João Ferreira de Almeida (JFA) (português, a partir de 1681)
A disponibilidade de um texto grego impresso e amplamente aceito foi fundamental para a Reforma Protestante, pois permitiu que os reformadores traduzissem as Escrituras diretamente do idioma original, contornando a autoridade da Vulgata Latina e, por extensão, da Igreja Romana. O TR catalisou o movimento de tradução bíblica e a disseminação do conhecimento bíblico entre o povo comum.
Relevância Contemporânea
No século XIX, as descobertas de manuscritos bíblicos muito mais antigos, como o Códice Sinaítico (século IV) e o Códice Vaticano (século IV), revolucionaram a crítica textual do Novo Testamento. Esses manuscritos revelaram que a base textual do TR, predominantemente bizantina e tardia, diferia em muitos pontos importantes dos textos mais antigos e, em geral, mais curtos e menos harmonizados.
A partir dessas descobertas, a crítica textual moderna desenvolveu metodologias mais sofisticadas para reconstruir o texto original do Novo Testamento, resultando nos textos críticos contemporâneos (como o Nestle-Aland e o United Bible Societies Greek New Testament). Esses textos são baseados em um conjunto muito mais amplo e antigo de evidências manuscritas e são a base para a maioria das traduções bíblicas modernas.
Apesar da ampla aceitação dos textos críticos modernos no meio acadêmico e na maioria das denominações protestantes, o Textus Receptus ainda mantém relevância para certos grupos. Alguns defensores do TR, frequentemente ligados a movimentos fundamentalistas ou conservadores, argumentam que ele representa o texto divinamente preservado, superior aos textos críticos modernos que consideram corrompidos ou incompletos. Para esses grupos, a continuidade histórica e o uso pelas traduções da Reforma conferem-lhe autoridade.
Historicamente, o TR continua sendo um objeto de estudo essencial para compreender a transmissão textual do Novo Testamento, a história da Reforma e o desenvolvimento das traduções bíblicas. Sua influência cultural e teológica, embora diminuída pela crítica textual moderna, permanece evidente nas traduções clássicas e nas discussões sobre a autoridade textual das Escrituras.