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Vulgata

Publicada em 405

VaticanoLatim

A Vulgata (código: VULG) representa um marco fundamental na história da Bíblia e da cultura ocidental. Esta tradução latina da Bíblia, elaborada por São Jerônimo no final do século IV, não apenas padronizou o texto bíblico na Igreja Ocidental por mais de mil anos, mas também moldou profundamente a teologia, a liturgia e a arte europeias.

História e Contexto da Tradução

No final do século IV, a Igreja Ocidental enfrentava um desafio significativo: a proliferação de inúmeras traduções latinas da Bíblia, coletivamente conhecidas como Vetus Latina. Estas versões, muitas vezes fragmentadas e inconsistentes, apresentavam variações textuais consideráveis, dificultando a uniformidade litúrgica e teológica. Foi nesse cenário que o Papa Dâmaso I, por volta de 382 d.C., incumbiu Eusébio Sofrônio Jerônimo, um erudito de vasta erudição e fluente em hebraico, grego e latim, da tarefa de revisar e padronizar as escrituras latinas.

Jerônimo iniciou sua obra com o Novo Testamento, revisando os Evangelhos e, posteriormente, as demais epístolas, utilizando manuscritos gregos como base. Este trabalho foi concluído por volta de 382-384 d.C. A etapa mais ambiciosa e controversa, contudo, seria a tradução do Antigo Testamento. Inicialmente, Jerônimo revisou os Salmos com base na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento), resultando no que viria a ser conhecido como o Saltério Galicano. No entanto, movido por um desejo de maior precisão e fidelidade ao texto original, ele decidiu empreender uma nova tradução do Antigo Testamento diretamente do hebraico, uma decisão radical para a época, pois a Septuaginta era amplamente aceita e reverenciada.

A tradução do hebraico para o latim foi um empreendimento monumental, realizado por Jerônimo em Belém, onde se dedicou intensamente ao estudo do hebraico com o auxílio de eruditos judeus. Este trabalho, que se estendeu por cerca de 15 anos, foi concluído por volta de 405 d.C., embora algumas partes tenham sido revisadas posteriormente. O nome "Vulgata" deriva da expressão latina *versio vulgata*, que significa "versão comum" ou "divulgada", indicando sua intenção de ser a edição acessível e amplamente utilizada pelo povo.

Metodologia de Tradução

A metodologia de tradução de São Jerônimo foi inovadora e multifacetada. Para o Novo Testamento, adotou uma abordagem de revisão, comparando os textos da Vetus Latina com os manuscritos gregos mais antigos e confiáveis disponíveis na época. Não se tratava de uma nova tradução completa, mas sim de uma depuração e harmonização das versões existentes, corrigindo erros e inconsistências.

No que concerne ao Antigo Testamento, a metodologia foi mais complexa e revolucionária. Jerônimo, após sua experiência com o Saltério Galicano (traduzido da Septuaginta), optou por traduzir a maioria dos livros diretamente do hebraico (e algumas partes do aramaico para porções de Daniel e Esdras). Essa escolha foi motivada pela convicção de que o texto hebraico representava a fonte mais autêntica e original. Ele empregou a técnica de *verbum e verbo* (palavra por palavra) em certas passagens, mas também utilizou *sensum de sensu* (sentido por sentido) quando a clareza e a fluidez do latim assim o exigiam. Sua proficiência em múltiplas línguas semíticas e clássicas, aliada ao seu rigor acadêmico, permitiu-lhe navegar pelas complexidades dos textos originais. A Vulgata também incorporou os livros deuterocanônicos (ou apócrifos), alguns dos quais Jerônimo traduziu da Septuaginta ou de fontes aramaicas, embora tenha expressado reservas quanto à sua canonicidade hebraica.

Características Distintivas

A Vulgata se destaca por diversas características que a diferenciaram das versões latinas anteriores e garantiram sua longevidade. Uma das principais é sua clareza e consistência linguística. Jerônimo conseguiu criar um texto que, embora erudito, era acessível e compreensível para os falantes de latim da época, evitando as obscuridades e variações encontradas na Vetus Latina. A precisão textual, especialmente no Antigo Testamento traduzido do hebraico, foi um avanço significativo, aproximando o texto latino das fontes originais.

Outra característica marcante é a latinidade clássica empregada. Jerônimo, um mestre do latim, infundiu na tradução um estilo elegante e digno, que elevou o patamar literário do texto bíblico em latim. A Vulgata também se tornou um repositório de vocabulário teológico, introduzindo e consolidando termos que se tornariam padrão no discurso eclesiástico e acadêmico do Ocidente. A uniformidade que a Vulgata trouxe ao texto bíblico latino foi crucial para a coesão da Igreja, eliminando a confusão gerada pela multiplicidade de versões.

Uso e Importância

A importância da Vulgata para a Igreja Ocidental e para a civilização europeia é inestimável. Por mais de um milênio, ela foi a versão padrão e autoritativa da Bíblia. Seu uso era ubíquo:

  • Litúrgico: Era o texto oficial para a celebração da Missa, o Ofício Divino e todas as práticas sacramentais.
  • Teológico: Serviu como a base para todo o estudo teológico, a escrita de comentários, sermões e tratados doutrinários da Idade Média e Renascença.
  • Educacional: As universidades medievais utilizavam a Vulgata como o principal texto para o ensino das Escrituras.
  • Cultural: Influenciou profundamente a literatura, a arte, a música e a filosofia ocidentais, com suas frases e imagens reverberando em inúmeras obras.
O Concílio de Trento (1545-1563) formalizou a autoridade da Vulgata, declarando-a a "edição autêntica" para leituras públicas, disputas, sermões e exposições, embora reconhecesse a necessidade de correções textuais, o que levaria à publicação da Vulgata Clementina em 1592. A Vulgata também foi a principal fonte para as primeiras traduções da Bíblia para as línguas vernáculas europeias, como a Bíblia de Wycliffe e a Bíblia de Lutero em suas fases iniciais.

Relevância Contemporânea

Mesmo após o surgimento de novas traduções e o avanço da crítica textual, a Vulgata mantém uma relevância significativa na contemporaneidade.

  • Histórica e Linguística: Permanece um documento histórico e linguístico de valor incalculável para o estudo da transmissão textual da Bíblia, da evolução do latim e da história do cristianismo.
  • Litúrgica Oficial: A Nova Vulgata (publicada em 1979 e revisada em 1986), uma versão atualizada e criticamente revisada da Vulgata, é a edição latina oficial da Igreja Católica Romana, servindo como texto de referência para traduções vernáculas e para a liturgia em latim.
  • Acadêmica: É indispensável para pesquisadores nas áreas de Patrística, estudos medievais, história da Igreja e crítica textual bíblica. A Vulgata é frequentemente consultada em edições críticas do texto hebraico e grego, pois reflete um estágio antigo da tradição textual.
  • Cultural: Sua influência persiste na cultura ocidental, com muitas expressões e conceitos bíblicos que entraram nas línguas europeias tendo sua origem nas formulações da Vulgata.
A Vulgata, portanto, transcende sua função original de uma mera tradução, consolidando-se como um pilar da fé, da cultura e do conhecimento ocidental, cujo legado continua a ser estudado e apreciado.